Uma boa língua, como sentida pelo povo*
Claude Piron Por que o esperanto ainda existe, apesar de ter tido, na História, mais chances de morrer que de viver? (cf. a esse respeito meu discurso na Unesco Apostar no esperanto, publicado na revista Esperanto de janeiro de 1987). Por que vieram e ainda vêm constantemente para suas fileiras homens e mulheres que o admiram tanto que dedicam ao seu desenvolvimento uma energia gigantesca? É válido perguntar-se o quê, nele, seduz a este ponto.
Estou convencido que o principal fator é a fecundidade natural de seu sistema. Recursos simplíssimos que produzem um inacreditável poder de expressão. A riqueza da língua é rapidamente percebida; pois já após algumas lições, os estudantes experimentam algo inesperado e entusiasmante: eles são capazes de compreender e formar expressões belas, divertidas ou precisas, que não podem desenvolver, em sua própria língua, com a mesma facilidade.
Além disso, eles se sentem respeitados. Outras línguas estrangeiras abusam de regras arbitrárias, que são como decisões caprichosas de um ditador, inventadas como uma maneira mais ou menos sádica para prestar homenagem a sua autoridade. Nada semelhante se encontra em esperanto.
A melhor maneira de fazer sentir seu poder é forçar pessoas subjugadas a fazer algo sem sentido, que ele/ela apenas faz porque não tem como escapar. Se um senhor obriga um escravo a rastejar em sua direção e lamber-lhe os pés, esta é uma maneira de mostrar aos presentes e ao próprio escravo: "Observem o quão poderoso eu sou!". O escravo no coração se enfurece, os espectadores sentem um medo e um ódio enormes, mas naquele momento não podem fazer qualquer coisa que seja: o senhor supera suas forças.
Ora, quando eu falo inglês, eu devo, para exprimir uma idéia tão simples quanto “as crianças poderão...”, obedecer aos caprichos arbitrários de um ditador lingüístico. Se eu considerasse apenas os elementos necessários à compreensão recíproca, eu poderia aplicar as regras normais da língua e dizer the childs will can. Contudo, as nações anglófonas me forçam a seguir arbitrariedades desconexas, que em nada contribuem para a comunicação fluida, mas aumentam muito a desigualdade entre nós. Eu não tenho o direito de formar o plural pela simples adição de -s. Eu devo dizer children. Por quê?
A resposta, como qualquer professor de línguas para crianças sabe muito bem - já que estas têm um raciocínio consecutivo e dificilmente dão crédito a regras sem sentido, vão logo perguntando “por quê?” - só pode ser: "porque é assim". Em outras palavras: não há uma causa racional, apenas que essas nações nos impõem seus costumes absurdos. Além disso, embora o verbo que normalmente significa “poder” ser can, e a maneira habitual de se conjugar um verbo no futuro seja colocar antes dele a partícula will; eu não tenho o direito, neste caso, de agir por dedução; de modo geral, eu devo usar outro verbo, porque can, 'poder', não tem futuro em inglês. Eu devo procurar outro caminho e utilizar, por exemplo, uma expressão como will be able to.
Como os povos não têm coragem de encarar a verdade, eles não percebem que, na comunicação internacional, submeter-se a tais absurdos é postar-se como um escravo diante de um senhor cujos pés se vai lamber, se ele ordenar. Que eu tenha buscado um exemplo do inglês não tem nenhum significado em especial. Quando o francês era instrumento de comunicação internacional, a situação era perfeitamente semelhante, e será semelhante qualquer que seja a língua étnica usada entre dois povos distintos.
As pessoas que iniciam um curso de esperanto - ou que o estudam por si mesmas em casa - não têm uma consciência clara sobre tudo isso. Mas elas sentem que esta língua lhes respeita, como nenhuma língua estrangeira estudada antes. Ao invés de serem obstáculos embaraçosos e humilhantes, cada recurso do esperanto favorece a comunicação: ele se harmoniza com as tendências naturais, aplicando livremente o princípio que rege o ato de exprimir-se com espontaneidade: inclinação a generalizar toda estrutura, toda regra gramatical ou lexical. Com o esperanto, após o primeiro período de familiarização, é possível se sentir em casa.
Este prazeroso sentimento baseia-se em que, após a etapa inicial, o esperanto convida constantemente a deduzir, mais do que a usar a memória. Isto é, creio, bastante importante, porque confiar na inteligência de outrem é muito mais respeitoso, estimável, do que obrigar-lhe a extrair da memória. Animais têm memória, mas apenas seres humanos possuem inteligência lingüística. Por isso eu acredito que o fenômeno esperanto supera em muito a esfera da lingüística. Trata-se de um golpe nas relações humanas e sócio-políticas, que o esperanto torna prática, moral e psicologicamente mais satisfatórias. A mensagem secreta do esperanto é que uma boa conduta se baseia não só na autoridade, mas sobre uma aplicação conseqüente de regras livremente aceitas. Compreendendo isso, você não mais se espantará que ele atraia esta resistência tão grosseira. Nossa boa língua ataca as raízes de costumes milenares. Com razão, eu penso, vê-se nela uma mutação.
* Fragmento do livro A Boa Língua (La Bona Lingvo, Editora "Pro Esperanto", Viena, 1989, 1ª Ed.), em que o autor, ex-tradutor da ONU e professor emérito da Universidade de Genebra, dá suas apreciações pessoais sobre inúmeras questões relativas à língua internacional esperanto.